9 anos de tatuagem: o que mudou desde o primeiro dia

Começou num sebo

Eu sempre desenhei. Não lembro de decidir isso em algum momento; simplesmente era o que eu fazia. Aos dez, doze anos, o caderno era de Dragon Ball, de anime, do que estava na TV. Desenhar era o jeito natural de ocupar as mãos e a cabeça.

Até o dia em que entrei num sebo e achei umas revistas de tatuagem. Velhas, empoeiradas, provavelmente já lidas por muita gente. Folheei e tive uma dessas sensações que a gente não consegue explicar direito: é isso. É isso que eu quero pra minha vida.

Foi do nada, e foi definitivo. Eu não sabia nada sobre tatuagem, não conhecia ninguém que tatuasse, não tinha a menor ideia de como aquilo funcionava por dentro. Mas me apaixonei ali, naquela prateleira, e nunca mais desapaixonei.

O problema é que eu era criança. E ninguém abre a porta de um estúdio pra uma criança, nem pra um adolescente. Naquela época também não existia o que existe hoje: internet em todo lugar, YouTube, tutorial, artista mostrando processo em vídeo. O acesso era zero. Então eu fiz o que dava pra fazer: continuei desenhando.


Anos de hobby, moda e estudo por conta própria

O desenho me levou pra ilustração, e a ilustração me levou pra moda. Trabalhei muitos anos criando estampa, e foi ali que aprendi coisas que carrego até hoje: composição, ritmo de linha, como uma imagem se comporta quando sai do papel e vai parar num corpo em movimento. Estampa e tatuagem têm mais em comum do que parece.

Enquanto isso, comecei a estudar tatuagem por conta própria. Sem mentor, sem curso, sem estúdio. Lendo o que encontrava, testando, errando, tentando de novo. Por muitos anos tatuei só por hobby, em paralelo com o trabalho de moda, com uma clientela que foi crescendo devagar, no boca a boca.

Tem uma coisa nesse período que eu só entendi depois: o hobby me deu tempo. Tempo pra desenvolver mão sem a pressão de pagar conta com isso. Tempo pra descobrir o que eu gostava de fazer e o que não gostava. Quando a tatuagem virou profissão, ela não começou do zero. Começou com anos de base construída em silêncio.


2017: a demissão que virou coragem

No começo de 2017 eu fui demitido. Foi uma demissão surpresa, de um trabalho que eu gostava muito, e me pegou mal. Fiquei bastante tempo sem chão.

Mas foi um mal que veio pro bem, como a gente diz. Porque foi ali que eu encontrei a coragem que não tinha tido antes: investir cem por cento na tatuagem. Enquanto eu tinha o emprego, tatuar era o plano B confortável, a coisa que eu amava mas não precisava sustentar. Quando o emprego caiu, sobrou a pergunta que eu vinha adiando há anos: e se eu tentasse de verdade?

Eu já tatuava há bastante tempo por hobby. Já tinha uma certa clientela. Já tinha mão. O que faltava não era técnica, era decisão. E a demissão tomou a decisão por mim.


Uma salinha por três meses, só pra testar

Aluguei uma mini salinha. Contrato de três meses, só pra testar. A ideia era simples: se em três meses isso não se pagar, eu volto pro mercado e sigo tatuando por hobby.

A primeira foto deste artigo é literalmente o dia 1. Uma maca, um carrinho preto com os materiais, uma cadeira de escritório, parede branca. Nada além do necessário. Olhando hoje, parece pequeno. Na época, parecia o mundo inteiro.

No primeiro mês, as contas estavam pagas. Não sobrou muito, mas pagou. E isso mudou tudo, porque tirou o “e se” da equação. Não era mais um teste. Era o trabalho. Eu me achei ali, de um jeito que nunca tinha me achado em nenhum outro lugar.

A partir daquele mês foi um caminho sem volta. E quando eu digo sem volta, não é força de expressão: é que eu realmente não consigo me imaginar fazendo outra coisa.


O que mudou em 9 anos

Muita coisa. A sala cresceu e virou a Flag Haus, na Vila Mariana. O carrinho preto do primeiro dia virou um estúdio com espaço pra receber gente com calma. Os equipamentos mudaram, a técnica amadureceu, o traço ficou mais fino e mais preciso porque foi pra esse lugar que a minha mão quis ir.

O jeito de trabalhar também mudou. No começo, como quase todo mundo, eu aceitava o que chegava. Hoje o processo é outro: tem conversa antes do desenho, tem curadoria do projeto, tem hora marcada e atenção individual. Isso não é frescura. É o que eu aprendi que faz diferença no resultado e na experiência de quem senta na cadeira. O artigo Antes do desenho, por que o briefing define a tatuagem explica esse processo em detalhe.

E o estúdio deixou de ser só eu. Hoje a Flag Haus é uma casa de vários universos: tem piercing com a Lethicia, tem a Irys, tem a Nicole, cada uma com o próprio traço e a própria forma de ver. O que era uma salinha alugada por três meses virou um lugar onde outras pessoas também constroem carreira.

O mercado mudou também. Quem quer tatuar hoje tem informação de sobra, e isso é bom. Mas informação demais também confunde, e escolher com quem tatuar virou uma decisão mais difícil do que era. Escrevi sobre isso em Como escolher um estúdio de tatuagem em São Paulo.


O que não mudou

A troca.

Se eu tivesse que resumir nove anos numa palavra, seria essa. O que me segura aqui não é a máquina, não é a técnica, não é o desenho em si. É a pessoa chegar no estúdio com uma ideia, a gente trocar uma conversa, eu fazer a tatuagem e ela sair de lá maravilhada com aquilo.

Quando eu trabalhava com moda, eu tinha um pouco desse impacto: ver as pessoas se sentindo bem com uma coisa que eu tinha criado. Mas a tatuagem leva isso pra outro nível. É uma coisa que vai pra sempre. Que se torna parte da personalidade da pessoa. Que ela vai olhar daqui a vinte anos e lembrar de quem era quando fez.

Ter esse impacto na vida de alguém é muito forte. E é exatamente o mesmo que eu senti no primeiro mês, na salinha, quando a primeira conta foi paga com tatuagem. Nove anos depois, essa parte não mudou nada.


Conclusão

Já fazem nove anos e eu mal senti passar. Parece que foi ontem que eu montei aquele carrinho preto e fiquei esperando alguém aparecer. De tanto que eu gosto disso, o tempo simplesmente não pesou.

Do sebo até aqui, o caminho foi longo e cheio de desvios: desenho, moda, hobby, demissão, coragem, uma salinha, um estúdio. Mas o fio que atravessa tudo é o mesmo moleque folheando revista velha e pensando “é isso”.

Nove anos de Flag Haus são nove anos dessa troca, uma pessoa de cada vez. Obrigado a cada uma que confiou a pele. Vamos pros próximos.

Se você tem uma história pra levar pro corpo, o primeiro passo continua sendo o mesmo do dia 1: conversar.

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